O que tem mais importância, relevância ou visibilidade? Nas últimas semanas, duas matérias amplamente divulgadas na mídia brasileira provocaram reflexões importantes sobre os valores que estamos promovendo como sociedade. De um lado, uma cientista brasileira desenvolve uma tecnologia capaz de devolver movimentos a pessoas com lesões medulares graves. De outro, uma influenciadora digital é apontada como a mulher “mais relevante” do país, reacendendo o debate sobre fama, consumo e influência social.
Embora tratem de temas distintos, essas notícias revelam uma questão central: o que estamos ensinando às novas gerações sobre sucesso, relevância e valor humano?
A ciência que transforma vidas
A pesquisa conduzida por cientistas brasileiras na área de regeneração neural reacendeu a esperança de milhões de pessoas com paralisia. O estudo utiliza uma proteína que favorece a reconexão dos circuitos nervosos, permitindo que pacientes com lesões medulares recuperem movimentos e sensibilidade.
Mesmo em fase experimental, os resultados já são considerados promissores pela comunidade científica.
Mais do que um avanço médico, esse tipo de pesquisa representa:
- anos de dedicação científica,
- compromisso com a dignidade humana,
- melhoria real na qualidade de vida,
- esperança baseada em evidências.
Esse é o tipo de contribuição que transforma vidas de forma concreta e duradoura.
A cultura da visibilidade e da influência digital
Em contraste, o debate recente sobre a relevância de figuras públicas nas redes sociais trouxe à tona uma realidade contemporânea: vivemos na era da atenção.
Influenciadores digitais acumulam milhões de seguidores e exercem forte impacto nos hábitos de consumo, comportamento e aspirações de jovens e adultos. Muitas vezes, sua relevância é medida por métricas como engajamento, alcance e faturamento publicitário.
Especialistas alertam que esse tipo de influência pode estimular:
- consumo impulsivo,
- idealização de riqueza rápida,
- comparação social constante,
- comportamentos de risco relacionados a jogos e apostas,
- frustração e baixa autoestima.
A questão central não é condenar a existência de influenciadores, mas refletir sobre os valores que estão sendo amplificados.
O impacto na formação de valores das crianças e adolescentes
Crianças e adolescentes constroem suas referências observando o mundo ao seu redor. Quando visibilidade é constantemente associada a sucesso, fama e consumo, algumas mensagens podem ser internalizadas:
- ser famoso é mais importante do que contribuir,
- dinheiro rápido vale mais que esforço contínuo,
- aparência e popularidade definem valor pessoal,
- reconhecimento imediato é mais desejável que crescimento gradual.
Esse cenário pode contribuir para ansiedade, baixa tolerância à frustração e dificuldade em lidar com processos que exigem tempo e dedicação.
Por outro lado, exemplos baseados em ciência, educação, arte e impacto social ensinam valores essenciais como perseverança, ética, empatia e compromisso com o bem coletivo.
O papel da família e da escola na mediação dessas influências
Não é possível isolar crianças do mundo digital, nem isso seria desejável. O caminho está na mediação consciente.
Pais e educadores podem:
✔ estimular o pensamento crítico sobre conteúdos consumidos
✔ discutir o que significa “ser relevante”
✔ valorizar esforço, conhecimento e contribuição social
✔ apresentar referências positivas e inspiradoras
✔ orientar sobre consumo consciente e responsabilidade digital
Essas conversas ajudam a desenvolver autonomia, senso crítico e autoestima saudável.
Que tipo de sociedade queremos construir?
As figuras que celebramos e os valores que promovemos influenciam diretamente a formação das novas gerações.
Celebrar avanços científicos, educacionais e sociais não significa rejeitar a cultura digital, mas equilibrar a admiração pela visibilidade com o reconhecimento de contribuições que realmente transformam vidas.
O futuro será moldado pelos modelos que escolhemos valorizar hoje. Relevância ou visibilidade são só um detalhe.
E essa escolha começa dentro de casa, na escola e nas conversas cotidianas com nossas crianças.
FAQ´s sobre: Relevância ou Visibilidade
Por que a influência digital impacta tanto crianças e adolescentes?
Porque jovens estão em fase de formação de identidade. Eles tendem a imitar comportamentos e valores percebidos como socialmente valorizados.
Influenciadores digitais são prejudiciais para o desenvolvimento infantil?
Não necessariamente. O impacto depende do conteúdo consumido e da mediação de pais e educadores.
Como ensinar crianças a diferenciar fama de relevância?
Conversas abertas, exemplos positivos e estímulo ao pensamento crítico ajudam a desenvolver essa distinção.
Quais os riscos da cultura do sucesso imediato para os jovens?
Ansiedade, baixa tolerância à frustração, consumismo e frustração com expectativas irreais.
Como apresentar modelos inspiradores para crianças e adolescentes?
Mostrando histórias de cientistas, educadores, atletas, artistas e pessoas que contribuíram positivamente para a sociedade.
A exposição às redes sociais pode afetar a autoestima infantil?
Sim. Comparações constantes podem gerar insegurança e sensação de inadequação.
Qual o papel da escola na formação de valores na era digital?
Promover pensamento crítico, cidadania digital e reflexão sobre consumo e influência.
Referências Bibliográficas
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LIVINGSTONE, Sonia. Children and the Internet: Great Expectations, Challenging Realities. Cambridge: Polity Press, 2009.
ORBEN, Amy; PRZYBYLSKI, Andrew K. The association between adolescent well-being and digital technology use. Nature Human Behaviour, v. 3, p. 173–182, 2019.
TWENGE, Jean M. iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy. New York: Atria Books, 2017.
TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.
UNICEF. The State of the World’s Children 2017: Children in a Digital World. New York: UNICEF, 2017.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Referências Jornalísticas
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JORNAL OPÇÃO. Não há mulher tão relevante no Brasil como Virginia? Um retrato do nosso tempo. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/faltou-dizer-colunas-e-blogs/nao-ha-mulher-tao-relevante-no-brasil-como-virginia-um-retrato-do-nosso-tempo-794933/. Acesso em: 20 fev. 2026.

Sou uma profissional apaixonada pela educação e pela psicopedagogia, com sólida experiência na criação de conteúdos educativos. Sou pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional, neuropsicopedagoga e especialista em TEA, com formação em ABA, PECS e TEACCH. Atualmente, estou embarcando em uma nova jornada: a graduação em Psicologia.



