As aulas voltaram e o boletim já mostra o problema. Seu filho trava na leitura, troca letras, escreve devagar, erra palavras que já sabia antes das férias. Isso é dificuldade com leitura e escrita. A primeira reação de muitos pais é achar que a criança “esqueceu” o conteúdo. Só que nem sempre é isso.
Existe uma diferença importante entre o cérebro que está desaquecido depois de semanas sem rotina de estudo, e um cérebro que já tinha uma dificuldade de leitura e escrita que as férias só deixaram mais visível. Saber diferenciar essas duas situações é o primeiro passo para não perder tempo nem alarmar a família à toa.
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O cérebro infantil funciona parecido com um músculo. Quando para de treinar, perde ritmo. Depois de três, quatro semanas sem ler um texto escolar ou escrever um parágrafo, é normal que a criança leve alguns dias para recuperar fluência. Isso vale para qualquer criança, com ou sem dificuldade de aprendizagem.
O problema é quando esse “desaquecimento” não passa depois de duas ou três semanas de aula. Se no meio de agosto a criança ainda troca “b” por “d”, ainda lê palavra por palavra sem juntar o sentido da frase, ainda evita qualquer atividade que envolva escrever, isso já não é falta de prática. É sinal de que algo mais profundo está acontecendo e merece avaliação.
Os sinais que diferenciam desaquecimento de dificuldade real
Uma criança que só está destreinada volta ao ritmo normal em pouco tempo, geralmente sem grande sofrimento emocional envolvido. Já uma criança que demonstra dificuldade com leitura e escrita costuma apresentar um padrão que se repete: ela evitava ler antes das férias também, só que as férias deram um motivo mais fácil para justificar o problema.
Vale observar coisas como troca constante de letras parecidas, dificuldade para juntar sílabas em palavras novas, escrita muito lenta em comparação com os colegas, cansaço ou irritação rápida diante de qualquer tarefa de leitura. Quando esses sinais já apareciam no semestre anterior e as férias só pioraram a percepção, o ideal é buscar uma avaliação psicopedagógica em vez de esperar mais um bimestre passar.
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O erro mais comum nessa fase é tentar “recuperar o tempo perdido” com listas enormes de exercícios de leitura e cópia. Isso costuma piorar a relação da criança com os livros, principalmente se ela já tem alguma dificuldade de base. O caminho mais eficaz é retomar aos poucos, com sessões curtas e consistentes, todos os dias, em vez de sessões longas de vez em quando.
Ler em voz alta junto com a criança, revezando parágrafos, ajuda bastante, porque tira a pressão de decodificar tudo sozinho. Escolher textos do interesse da criança, mesmo que sejam gibis ou textos de jogos, também facilita a retomada, já que o objetivo nessa fase é reconstruir o vínculo com a leitura antes de cobrar desempenho.
Vale conversar com o professor sobre o que foi observado nas primeiras semanas. Muitas vezes a escola já percebeu o mesmo padrão e pode ajudar a diferenciar se é uma questão pontual da turma toda voltando de férias, ou se é algo específico daquela criança.
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Se depois de um mês de aula a criança ainda demonstra sofrimento visível com leitura e escrita, chorando, evitando tarefas, dizendo que é “burra” ou incapaz, esse já é o momento de procurar uma avaliação psicopedagógica. A avaliação não serve para colar um rótulo na criança, serve para entender exatamente onde está a dificuldade e montar um plano de intervenção que funcione para aquele caso específico.
Quanto antes isso acontece, menor é o impacto na autoestima da criança. Muitas dificuldades de leitura e escrita, quando identificadas cedo, respondem muito bem a intervenções simples e consistentes, sem precisar de anos de acompanhamento intenso.
Perguntas frequentes:
Quanto tempo é normal a criança levar para “voltar ao ritmo” depois das férias?
Na maioria dos casos, entre uma e três semanas de aula já são suficientes para a criança recuperar a fluência de leitura e escrita que tinha antes do recesso. Se passar desse prazo sem melhora, vale observar com mais atenção.
Toda dificuldade de leitura é dislexia?
Não. A dislexia é apenas uma das causas possíveis de dificuldade de leitura e escrita. Outras causas incluem desatenção, ansiedade, baixa exposição à leitura em casa, ou simplesmente um estilo de aprendizagem diferente que ainda não encontrou o método certo.
Devo forçar a criança a ler todos os dias durante essa fase de readaptação?
O ideal é manter uma rotina leve e consistente, sessões curtas todos os dias, em vez de sessões longas e esporádicas. Forçar demais nessa fase costuma criar mais resistência do que resultado.
Vale a pena conversar com a escola antes de procurar um especialista?
Sim. O professor tem um ponto de comparação valioso, porque vê a criança ao lado dos colegas da mesma idade todos os dias. Essa conversa ajuda a decidir se é uma questão pontual ou se já é hora de buscar uma avaliação psicopedagógica.
Referências Bibliográficas
VITA CLÍNICA. Transtorno da leitura e da escrita: dislexia. Disponível em: https://vitaclinica.com.br/blog-da-vita/transtorno-da-leitura-e-da-escrita-dislexia/. Acesso em jul. 2026.
OFICINA DE PSICOLOGIA. Dificuldade de Aprendizagem Específica na Leitura (Dislexia). Disponível em: https://oficinadepsicologia.com/dificuldade-de-aprendizagem-especifica-na-leitura-dislexia/. Acesso em jul. 2026.
EDITORA OPET. Dislexia ou dificuldade de leitura? Diferenças e semelhanças entre os transtornos de leitura. Disponível em: https://editoraopet.com.br/blog_opet/dislexia-ou-dificuldade-de-leitura-diferencas-e-semelhancas-entre-os-transtornos-de-leitura/. Acesso em jul. 2026.
BRAZIL HEALTH. Volta às aulas: quando a recusa da criança é normal e quando acender o alerta. Disponível em: https://www.brazilhealth.com/br/noticia/estresse/volta-as-aulas-quando-a-recusa-da-crianca-e-normal-e-quando-acender-o-alerta. Acesso em jul. 2026.

Cristina Torres Fonseca é pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional e neuropsicopedagoga especializada em TEA. Com mais de 10 anos de atuação em Recife, dedica sua prática a ajudar crianças com dificuldades de aprendizagem, TDAH e autismo a desenvolverem seu potencial. Formada em ABA, PECS e TEACCH, combina rigor técnico com escuta sensível, para orientar famílias e educadores com clareza e acolhimento.
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