Ninguém te conta isso quando o diagnóstico chega: as férias, que deveriam ser a parte fácil do ano, pode ser a mais dura. Enquanto todo mundo comemora o fim das aulas, muitas famílias de crianças autistas entram em modo de sobrevivência, por causa da rotina quebrada. Sono virado, refeições em horários aleatórios, dias sem estrutura nenhuma. O corpo da criança sente isso antes mesmo dela conseguir dizer o que está sentindo. E é aí que aparecem birras mais frequentes, choro sem motivo aparente, recusa em sair de casa ou, ao contrário, uma agitação que não passa.
Não é falta de educação nem “manha de férias”. É o sistema nervoso reagindo à perda da previsibilidade que ele usa como âncora o ano inteiro. E é exatamente isso que quero destrinchar aqui.
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Previsibilidade não é frescura, é regulação. Para uma criança com TEA, saber o que vem depois é o que permite que o cérebro gaste energia em outras coisas em vez de ficar em alerta constante tentando adivinhar o próximo passo. Quando essa estrutura desaparece de uma hora para outra, o corpo interpreta como ameaça. Literalmente.
Isso explica por que muitas crianças autistas ficam mais rígidas, mais explosivas ou mais caladas justamente quando deveriam estar relaxando. O problema não é o tempo livre em si, é a ausência de estrutura dentro desse tempo livre.
E para quem tem TDAH, o que muda?
Na criança com TDAH a história é parecida, mas com outra roupagem. Sem os limites externos da escola (horário de entrada, sinal batendo, professor cobrando), a autorregulação que já é frágil no dia a dia escolar praticamente desaparece. O resultado costuma ser um misto de tédio, impulsividade e dificuldade de se organizar sozinho, o que gera atrito em casa exatamente no período em que a família quer sossego.
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Alguns sinais costumam aparecer nas primeiras duas semanas de férias, e vale ficar de olho:
- Sono desregulado, dormindo tarde e acordando exausta
- Birras mais longas ou mais frequentes que o normal
- Recusa em participar de atividades que antes gostava
- Estereotipias mais presentes (balançar o corpo, repetir sons)
- Irritabilidade sem gatilho claro aparente
- Isolamento maior, evitando até a família
Nenhum desses sinais isolado é motivo de pânico. O que importa é o padrão: se está se repetindo e se está piorando ao longo dos dias.
Como manter previsibilidade sem virar as férias em extensão da escola
O objetivo não é recriar o horário escolar, é dar uma estrutura mínima que sirva de âncora. Algumas coisas que costumam funcionar na prática:
Mantenha três horários fixos: acordar, comer e dormir. Só isso já resolve boa parte da desregulação. O resto do dia pode ser mais solto.
Use agenda visual, mesmo nas férias. Não precisa ser elaborada, um quadro simples com os blocos do dia (manhã, tarde, noite) e o que está previsto em cada um já dá segurança.
Anuncie mudanças com antecedência. Se vai ter uma viagem, uma visita, uma mudança de plano, fale antes. Criança no espectro lida muito melhor com o imprevisto quando ele deixa de ser imprevisto.
Preserve um ritual fixo por dia. Pode ser o banho antes de dormir, pode ser um desenho específico depois do almoço. Um ponto fixo no meio da bagunça ajuda o cérebro a se ancorar.
Não zere os estímulos sensoriais de uma vez. Trocar escola por viagens, praia, shopping e festa de família na mesma semana é sobrecarga. Intercale dias mais cheios com dias mais calmos em casa.
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Ler artigo completoQuando buscar ajuda profissional?
Se a criança não consegue se reorganizar mesmo depois de retomada a estrutura, se a ansiedade está afetando alimentação ou sono de forma persistente, ou se o comportamento está gerando risco para ela ou para outras pessoas, esse é o momento de procurar a equipe multidisciplinar, caso seu filho seja acompanhado. Não é sinal de fracasso dos pais, é reconhecer que a criança precisa de uma ferramenta a mais do que a família consegue oferecer sozinha.
Quer entender melhor como funciona esse acompanhamento? Agende uma avaliação e descubra o melhor caminho para o seu filho.
Férias sempre pioram o comportamento de crianças autistas?
Não necessariamente, mas é muito comum. A quebra da estrutura escolar tira uma referência importante de previsibilidade, e isso pode gerar ansiedade que aparece como birra, agitação ou isolamento.
É ruim manter uma rotina rígida durante as férias?
Rigidez total também não é o ideal, o segredo é ter alguns pontos fixos (horário de dormir, de acordar, de comer) e deixar o resto mais flexível. Isso dá segurança sem transformar as férias em mais um período de cobrança.
Agenda visual funciona para crianças pequenas?
Sim, e costuma funcionar ainda melhor com crianças pequenas, porque elas ainda não têm noção de tempo bem desenvolvida. Ver o dia representado em imagens ajuda a antecipar o que vem a seguir.
Quando a ansiedade nas férias é motivo de preocupação?
Quando os sinais persistem além das primeiras semanas, pioram progressivamente, ou afetam sono e alimentação de forma consistente. Nesses casos vale buscar avaliação psicológica.
Referências bibliográficas
BARANEK, G. T. Efficacy of sensory and motor interventions for children with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 32, n. 5, p. 397-422, 2002.
MESIBOV, G. B.; SHEA, V.; SCHOPLER, E. The TEACCH Approach to Autism Spectrum Disorders. New York: Springer, 2004.
ROTTA, N. T.; OHLWEILER, L.; RIESGO, R. dos S. Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2016.
BOSA, C. A. Autismo: intervenções psicoeducacionais. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 28, supl. 1, p. S47-S53, 2006.

Cristina Torres Fonseca é pedagoga, psicopedagoga clínica e institucional e neuropsicopedagoga especializada em TEA. Com mais de 10 anos de atuação em Recife, dedica sua prática a ajudar crianças com dificuldades de aprendizagem, TDAH e autismo a desenvolverem seu potencial. Formada em ABA, PECS e TEACCH, combina rigor técnico com escuta sensível, para orientar famílias e educadores com clareza e acolhimento.
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