Criança Autista na Festa Junina: Como Preparar e Proteger

Criança Autista na Festa Junina

Junho chegou, e com ele o cheiro de milho verde, o barulho das quadrilhas, os fogos de artifício estourando ao longe e a multidão animada nas ruas. Para a maioria das crianças, isso é festa. Para muitas famílias de crianças no espectro autista, é o começo de um período de alerta.

Não porque a criança autista não possa participar das festas juninas, mas porque o ambiente típico desses festejos reúne, ao mesmo tempo, quase todos os gatilhos de sobrecarga sensorial: barulho intenso e imprevisível, luzes coloridas piscando, cheiros fortes de comida e fumaça, aglomeração de pessoas e mudança total na rotina. Para o sistema nervoso de uma criança autista na festa junina, isso pode ser muito mais do que desconfortável.

A boa notícia é que com planejamento, antecipação e as estratégias certas, é completamente possível incluir seu filho nas celebrações de forma respeitosa e segura. Este artigo foi escrito exatamente para ajudar você a fazer isso.

Seu filho tem TEA e você quer entender melhor como funciona o processamento sensorial dele? A avaliação psicopedagógica especializada pode ser o primeiro passo. Fale com Cristina Fonseca e agende uma conversa.

O que acontece no cérebro autista diante de tanto estímulo

Para entender por que a festa junina pode ser tão desafiadora, é preciso entender como o TEA afeta o processamento sensorial.

Crianças com transtorno do espectro autista frequentemente apresentam o que os especialistas chamam de disfunção no processamento sensorial: o sistema nervoso central tem dificuldade para organizar, filtrar e interpretar as informações que chegam pelos sentidos ao mesmo tempo. Isso não significa fraqueza ou falta de disposição. Significa que estímulos que parecem normais para a maioria das pessoas podem chegar com intensidade amplificada, ou de forma completamente desorganizada, para uma criança no espectro.

Na prática, sons que parecem altos para qualquer criança podem ser literalmente dolorosos para uma criança com hipersensibilidade auditiva. O estampido de um fogos de artifício, por exemplo, pode provocar uma reação de pânico real, não uma birra, não uma exageração. É o sistema nervoso interpretando aquele som como uma ameaça.

A teoria de Integração Sensorial, desenvolvida pela terapeuta ocupacional Jean Ayres na década de 1960 e hoje reconhecida pelo COFFITO como prática baseada em evidências para o tratamento do TEA, explica que o cérebro precisa organizar e integrar informações sensoriais para responder de forma adequada ao ambiente. Quando essa integração está comprometida, o resultado pode ser crise, isolamento, comportamentos repetitivos intensificados ou paralisia.

Entender isso muda tudo. Muda a forma como você enxerga a reação do seu filho. E muda a forma como você pode ajudá-lo.

Os principais gatilhos sensoriais da festa junina

Antes de falar em estratégias, vale mapear o que especificamente no ambiente junino costuma desencadear sobrecarga em crianças com TEA:

Som

É, provavelmente, o gatilho mais intenso. Fogos de artifício, forró alto nas caixas de som, o barulho coletivo de uma multidão animada, microfones, apitos. Sons altos e imprevisíveis são os mais difíceis de processar porque o cérebro não consegue se antecipar a eles.

Luz e movimento visual

Luzes coloridas piscando, bandeirolas balançando, pessoas se movendo em todas as direções. O campo visual fica sobrecarregado de informação ao mesmo tempo.

Toque e proximidade física

Festas juninas costumam ter aglomeração. Ser tocado de surpresa por um estranho na multidão, ou sentir o calor corporal de muita gente próxima, pode ser extremamente desconfortável para crianças com hipersensibilidade tátil.

Cheiros

Fumaça de fogos, cheiro de fritura, comidas variadas no mesmo espaço, perfumes. O sistema olfativo de crianças com TEA pode processar isso como um estímulo avassalador.

Quebra de rotina

Talvez o gatilho mais subestimado. A festa junina geralmente significa horário diferente, lugar diferente, roupa diferente (a fantasia), comida diferente. Para uma criança cujo sistema nervoso depende de previsibilidade para funcionar bem, essa quebra total de rotina já é, por si só, uma fonte de estresse antes mesmo de chegar ao evento.

Como preparar sua criança autista para a festa junina

A palavra mais importante aqui é antecipação. Quanto mais você preparar o terreno antes do evento, menores as chances de sobrecarga durante.

Converse antes, com recursos visuais

Explique o que vai acontecer. Use fotos de festas juninas, vídeos no YouTube, histórias sociais (narrativas visuais que descrevem situações novas passo a passo). Mostre como é uma quadrilha, como é o barulho dos fogos, o que as pessoas costumam vestir. Seu filho precisa que o evento já exista na mente dele antes de acontecer no mundo real.

Uma mãe de uma criança autista de 6 anos que vive em Ilhéus, Bahia, descreveu bem essa lógica: “A estratégia que uso com meu filho é o conhecimento prévio. Sempre aproveito as situações para ensinar a respeito delas, assistimos vídeos no YouTube, conversamos, explico a ele o significado e a origem. Hoje é mais tranquilo, mas já foi muito difícil.”

Escolha um evento menor ou em horário mais tranquilo

Nem toda festa junina precisa ser no meio do Parque de Exposições lotado às 22h. Há festas escolares durante o dia, eventos menores em associações de bairro, celebrações em casa com poucas pessoas. Comece pelo menor e avance conforme a criança se sentir segura.

Leve o kit sensorial

Para crianças com hipersensibilidade auditiva, abafadores de ruído são uma ferramenta indispensável. Eles reduzem a intensidade dos sons sem isolar completamente a criança do ambiente, o que permite participação sem sobrecarga. Há modelos disponíveis a partir de R$ 60 em marketplaces.

Além dos abafadores, pense em: óculos de sol (para estímulos visuais), uma roupa confortável por baixo da fantasia se necessário, um objeto de regulação favorito da criança, e snacks conhecidos para evitar conflito com alimentos diferentes.

Crie um plano de saída

Antes de ir, defina com a criança um “sinal combinado” para quando ela precisar sair do ambiente. Pode ser uma palavra, um gesto, um cartão. E cumpra o combinado sem questionamento. Saber que há uma saída disponível reduz, por si só, o nível de ansiedade antecipatória.

Ter um espaço de descanso previamente identificado no local do evento também ajuda: um canto mais quieto, um banco afastado do palco, o carro. Em algumas festas maiores, já existe uma “área de descanso sensorial”. Vale perguntar à organização.

Respeite o limite sem culpa

Se a criança sinalizar que chegou no limite, acredite. Não insista. A participação forçada além do ponto de tolerância não treina a criança a “se acostumar”, ela apenas cria uma associação negativa com aquele tipo de evento para as próximas vezes.

Não tem certeza de qual é o perfil sensorial do seu filho? A avaliação especializada mapeia exatamente quais sentidos são hipersensíveis e como intervir de forma adequada. Entre em contato com Cristina Fonseca.

O papel da escola na festa junina inclusiva

A festa junina da escola merece atenção especial porque, diferente de um evento familiar, ela envolve obrigações e expectativas sociais mais difíceis de gerenciar.

Se seu filho tem TEA e há uma apresentação de quadrilha ou atividades coletivas previstas, converse com a escola antes. Pergunte se é possível adaptar a participação: ensaios em horários diferentes do grupo, posição na quadrilha próxima à saída, dispensa da fantasia se ela causar desconforto tátil, permissão para usar abafadores durante o evento.

A inclusão real não é colocar a criança no mesmo lugar que todas as outras e torcer para que funcione. É criar as condições para que ela possa participar do jeito que ela consegue.

O que fazer durante uma crise sensorial na festa

Mesmo com todo o planejamento, pode acontecer. Se a criança entrar em sobrecarga sensorial durante o evento, lembre-se:

Primeiro, saia do ambiente imediatamente. Não tente acalmar no mesmo lugar onde está o estímulo que desencadeou a crise. Vá para um local mais quieto e com menos gente.

Segundo, reduza os estímulos ativamente: abaixe a voz, evite tocar a criança sem permissão, diminua a iluminação se possível, ofereça o objeto de regulação favorito.

Terceiro, não exija que a criança se explique durante a crise. Ela não consegue. O córtex pré-frontal, responsável pela linguagem e pelo raciocínio, está praticamente offline durante uma sobrecarga sensorial intensa. A conversa vem depois, quando a criança estiver regulada.

Quarto, não transforme o episódio em culpa ou fracasso. Não da criança, não de você.

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Festa junina pode ser positiva para crianças com TEA?

Sim, e isso é importante dizer. Com as adaptações certas, as festas juninas oferecem oportunidades reais de desenvolvimento para crianças no espectro.

A música do forró, com seu ritmo marcado e previsível, pode ser reguladora para crianças que respondem bem a estímulos rítmicos. A quadrilha, com sua sequência de movimentos e comandos definidos, trabalha memória sequencial, seguimento de instruções e coordenação motora. As atividades típicas das festas, como pescaria, argolas e pula-saco, são estruturadas e têm começo, meio e fim claros, o que facilita a participação de crianças que precisam de previsibilidade.

Cultura, identidade regional, pertencimento. Esses são valores que fazem bem a qualquer criança. E que uma criança autista também pode e merece vivenciar, no ritmo e no nível de intensidade que ela consegue.

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Quando buscar apoio especializado

Se o seu filho reage de forma muito intensa a ambientes sensorialmente ricos, se as crises estão se tornando mais frequentes ou mais difíceis de manejar, ou se você percebe que a hipersensibilidade está limitando a participação dele em atividades sociais importantes, vale buscar apoio profissional.

A terapia de integração sensorial, realizada por terapeutas ocupacionais especializados em TEA, é reconhecida como prática baseada em evidências pelo COFFITO e tem mostrado resultados positivos em habilidades motoras, regulação comportamental e participação social de crianças no espectro.

Além disso, a avaliação psicopedagógica especializada permite entender o perfil de aprendizagem e desenvolvimento da criança como um todo, e criar estratégias individualizadas para a escola, para casa e para situações sociais como as festas. É o tipo de suporte que faz diferença na prática.

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Perguntas frequentes sobre: Criança Autista na Festa Junina

Toda criança com TEA tem hipersensibilidade sensorial?

Não. O espectro autista é amplo e cada criança tem um perfil sensorial diferente. Algumas têm hipersensibilidade (respondem de forma exagerada aos estímulos), outras têm hipossensibilidade (precisam de mais estímulo para perceber) e muitas apresentam uma combinação dos dois padrões dependendo do sentido. O que vale é observar seu filho especificamente e adaptar o ambiente para o perfil dele.

Devo evitar completamente as festas juninas com meu filho autista?

Não necessariamente. A exclusão total também tem um custo social e emocional. O objetivo é criar condições para que a participação seja possível no nível de tolerância da criança. Isso pode significar uma festa menor, um tempo mais curto de permanência, ou a festa em casa mesmo. Participar de alguma forma costuma ser melhor do que não participar nunca.

Abafadores de ruído prejudicam o desenvolvimento auditivo da criança?

Não há evidências de que o uso de abafadores auditivos, em contextos de sobrecarga sensorial, prejudique o desenvolvimento auditivo. Eles funcionam reduzindo a intensidade do som, não bloqueando completamente a audição. O uso terapêutico é recomendado por terapeutas ocupacionais exatamente para evitar as crises que, aí sim, têm impacto no bem-estar e na aprendizagem.

O que é uma crise sensorial e como ela se parece?

Uma crise sensorial acontece quando o sistema nervoso recebe mais estímulos do que consegue processar. Ela pode aparecer como choro intenso, gritos, comportamentos de fuga (tentar sair correndo), comportamentos autoestimulatórios intensificados (balançar o corpo, bater as mãos), agressividade ou, em alguns casos, congelamento e paralisia. É diferente de uma birra comum e não deve ser tratada com punição ou confronto.

Como explicar para outras crianças e adultos por que meu filho precisa sair da festa?

Com simplicidade e sem exagerar nas explicações. “Ele precisa de um momento mais quieto, já volta” é suficiente para a maioria das situações. Você não deve uma explicação completa sobre o diagnóstico do seu filho para cada pessoa que perguntar. Proteger o bem-estar dele é a prioridade.

A escola é obrigada a adaptar a festa junina para crianças com TEA?

Sim. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) garante adaptações razoáveis para que crianças com deficiência participem de atividades escolares. Isso inclui eventos como festas juninas. A escola deve, mediante solicitação dos pais, encontrar formas de viabilizar a participação da criança com TEA com as adaptações necessárias.

Referências bibliográficas

AYRES, A. Jean. Sensory Integration and the Child. Western Psychological Services, 1979.

PARHAM, L. D.; ECKER, C. L.; KUHANECK, H.; HENRY, D. A.; GLENNON, T. J. Sensory Processing Measure: Second Edition (SPM-2). Los Angeles: Western Psychological Services, 2021.

PONTES, Luana Torres. Terapia ocupacional, integração sensorial e o uso de estratégias sensoriais na educação de crianças com TEA: uma revisão integrativa. Repositório UNIFESP, 2024.

ROLIM, A. F.; LIIDER, L. C. M.; OMAIRI, C. Data-Driven Decision Making (DDDM) sob a perspectiva da Integração Sensorial de Ayres. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 31, p. e3541, 2023.

SERRANO, P. A Integração Sensorial no desenvolvimento e aprendizagem da criança. Portugal: Papa-Letras, 2016.

TAVASSOLI, T. et al. Sensory reactivity, empathizing and systemizing in autism spectrum conditions and sensory processing disorder. Developmental Cognitive Neuroscience, Elsevier, 2018.

BRASIL. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei n.º 13.146, de 6 de julho de 2015.

CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL (COFFITO). Reconhecimento da Integração Sensorial como prática baseada em evidências para TEA.

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