Criança não consegue copiar do quadro: o que pode estar acontecendo?

copiar do quadro

Tem coisa que frustra mais a professora do que ver a criança olhando para o quadro e, quando baixa a cabeça para o caderno, esquecer o que estava escrito. Ou pior: escrever tudo torto, com letras faltando, fora da linha, demorar o dobro do tempo da turma e ainda assim não terminar. Quando isso acontece todo dia, o que parece preguiça ou falta de atenção pode ser, na verdade, um sinal de que algo no processamento dessa criança precisa de atenção.

Copiar do quadro é uma tarefa que parece simples, mas exige a coordenação de pelo menos quatro sistemas ao mesmo tempo: visão, atenção, memória de trabalho e controle motor. Se qualquer um desses sistemas não estiver funcionando bem, a cópia vai ser difícil, lenta ou cheia de erros.

Se você é mãe, pai ou professora e está percebendo esse padrão numa criança, este artigo é para você. Aqui vou explicar as causas mais comuns, os sinais que merecem atenção e o que pode ser feito para ajudar de verdade.

Por que copiar do quadro é tão difícil para algumas crianças?

Quando a criança copia do quadro, o cérebro precisa:

  1. Focalizar a visão no texto distante
  2. Processar e compreender o que está sendo visto
  3. Guardar na memória de trabalho um pedaço da informação
  4. Transferir os olhos do quadro para o caderno sem perder o ponto onde estava
  5. Traduzir essa informação em movimentos finos da mão para escrever

Se você notar, é um processo parecido com o de um adulto tentando transcrever um número de telefone que está do outro lado da sala. Agora imagine fazer isso com 7 anos, por 40 minutos seguidos, enquanto a professora continua acrescentando conteúdo ao quadro. Para algumas crianças, esse esforço é real e exaustivo.

As causas mais comuns

1. Problemas de visão não identificados

O primeiro lugar a investigar é a acuidade visual. Uma criança com miopia, astigmatismo ou dificuldade de foco binocular pode literalmente não enxergar o quadro com clareza. O problema é que ela muitas vezes não sabe que está enxergando “errado”, porque nunca enxergou diferente.

Sinal de alerta: a criança pisca muito, aproxima o rosto do caderno, inclina a cabeça de lado, ou reclama de dor de cabeça depois de atividades visuais.

O ideal é consultar um oftalmologista pediátrico e, se necessário, um ortoptista, que avalia o funcionamento dos músculos dos olhos e a coordenação ocular.

2. Dificuldade de processamento visual

Mesmo com visão 20/20, algumas crianças têm dificuldade em processar o que enxergam. O processamento visual é a capacidade do cérebro de interpretar, organizar e dar sentido às informações visuais. Quando ele está comprometido, a criança pode ver as letras, mas ter dificuldade em distingui-las, memorizá-las ou reproduzi-las com precisão.

Isso é diferente de um problema de visão. A criança enxerga bem, mas o cérebro não processa eficientemente o que os olhos captam.

3. Memória de trabalho fraca

A memória de trabalho é a capacidade de manter uma informação “ativa” na cabeça por tempo suficiente para usá-la. Quando a criança levanta os olhos do caderno para olhar o quadro, ela precisa guardar o trecho onde parou. Se a memória de trabalho é limitada, ela perde o fio a todo momento e precisa recomeçar várias vezes, o que torna a cópia lenta, incompleta e fragmentada.

Crianças com TDAH costumam ter memória de trabalho significativamente abaixo da média, e esse é um dos motivos pelos quais a dificuldade de copiar do quadro é tão comum nesse grupo.

Leitura recomendada

TDAH em crianças: tudo o que pais e professores precisam saber

Entenda como o TDAH afeta a atenção, a memória de trabalho e o desempenho escolar das crianças.

Ler artigo

4. Dificuldade de coordenação motora fina

Copiar exige controle preciso dos músculos da mão e dos dedos. Crianças com dificuldades motoras finas escrevem com pressão irregular, têm letra inconsistente, cansam os dedos rapidamente e ficam para trás na cópia não porque não entendem o conteúdo, mas porque o ato físico de escrever exige delas um esforço desproporcional.

Essa dificuldade pode estar associada ao Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), também chamado de dispraxia, e é avaliada e tratada pelo terapeuta ocupacional.

5. Dificuldade de rastreamento visual

O rastreamento visual é a capacidade de mover os olhos de forma suave e controlada ao longo de uma linha de texto, e de alternar o foco entre dois pontos, como o quadro e o caderno. Quando essa habilidade não está bem desenvolvida, a criança perde o lugar constantemente, salta linhas, embaralha a sequência das letras e precisa recomeçar várias vezes durante a cópia.

Esse tipo de dificuldade não aparece num exame de visão convencional, e por isso costuma passar despercebida por muito tempo.

6. Dificuldade de atenção e regulação

Manter o foco numa tarefa repetitiva e visualmente exigente como a cópia requer esforço atencional sustentado. Crianças com dificuldades de regulação atencional, seja por TDAH, ansiedade ou fadiga, podem iniciar a cópia com boa intenção, mas perder o fio aos poucos, principalmente quando o ambiente da sala tem muitos estímulos concorrentes.

Os sinais que merecem atenção

Além da lentidão e dos erros na cópia, outros comportamentos costumam aparecer junto:

  • A criança copia muito menos que os colegas e raramente termina
  • Ela pula palavras, letras ou linhas inteiras sem perceber
  • O caderno dela está sempre incompleto, mesmo que preste atenção na aula
  • Ela reclama de cansaço nos olhos ou dor de cabeça depois de copiar
  • Ela consegue fazer as atividades orais muito melhor do que as escritas
  • Ela copia bem quando o texto está próximo (no livro), mas tem muito mais dificuldade com o quadro distante

Se dois ou mais desses pontos descrevem a criança que você está observando, vale investigar.

O que fazer na prática

Para os pais

Comece com uma consulta oftalmológica pediátrica para descartar ou confirmar problemas visuais. Se a visão estiver boa, o próximo passo é conversar com a escola para entender melhor o padrão que está sendo observado, e considerar uma avaliação psicopedagógica ou com o terapeuta ocupacional.

Evite rotular a criança como preguiçosa ou desinteressada. Quando a dificuldade tem uma causa funcional, a pressão aumenta a ansiedade e piora o desempenho.

Para os professores

Algumas adaptações simples fazem diferença imediata:

  • Permitir que a criança copie de uma cópia impressa ou do livro, em vez de sempre do quadro
  • Reduzir a quantidade de texto a ser copiado
  • Dar tempo extra para finalizar a cópia
  • Posicionar a criança perto do quadro
  • Usar letras maiores e com bom contraste ao escrever no quadro

Essas não são “vantagens indevidas”. São ajustes que permitem que a criança aprenda o conteúdo sem ficar travada no processo de cópia.

Leitura recomendada

Dificuldade de aprendizagem: quando é hora de buscar ajuda profissional?

Saiba identificar os sinais que indicam que a criança precisa de avaliação especializada.

Ler artigo

Quando procurar avaliação especializada?

A avaliação psicopedagógica é o caminho mais indicado quando a criança tem dificuldade escolar persistente e as intervenções simples não resolvem. Ela investiga as habilidades cognitivas, atencionais e de aprendizagem de forma integrada, o que permite identificar exatamente o que está comprometendo o desempenho e traçar um plano de intervenção específico para aquela criança.

Dependendo do que for encontrado, pode ser indicada também a avaliação com terapeuta ocupacional (para as questões motoras e de processamento sensorial) e com o oftalmologista ou ortoptista (para as questões visuais).

O importante é não deixar passar. Quanto mais cedo a dificuldade for identificada e tratada, menor o impacto no aprendizado e na autoestima da criança.

Leitura recomendada

O que é avaliação psicopedagógica e como ela funciona?

Entenda o processo de avaliação, o que é investigado e como os resultados ajudam a criança na escola.

Ler artigo

Perguntas frequentes (FAQ)sobre: Dificuldades para copiar no quadro

A criança que não consegue copiar do quadro tem algum transtorno?

Não necessariamente. A dificuldade de cópia pode ter causas variadas, desde problemas visuais simples até questões de processamento ou atenção. Só uma avaliação especializada pode identificar se há um transtorno associado.

Essa dificuldade melhora com o tempo?

Depende da causa. Problemas visuais corrigidos com óculos melhoram rapidamente. Dificuldades de processamento visual, memória de trabalho ou coordenação motora respondem bem à intervenção especializada, mas raramente se resolvem sozinhas sem apoio.

O que diferencia dificuldade de copiar do quadro de preguiça?

A criança “preguiçosa” geralmente evita tarefas porque não quer. A criança com dificuldade funcional frequentemente tenta, se frustra e muitas vezes nem percebe que está errando. Além disso, costuma se sair bem em situações que não exigem cópia.

Criança com TDAH sempre tem dificuldade para copiar?

Não sempre, mas é muito comum. A memória de trabalho reduzida e a dificuldade de manter o foco em tarefas repetitivas são os principais fatores que tornam a cópia difícil para crianças com TDAH.

A escola é obrigada a fazer adaptações para essa dificuldade?

Quando há laudo de um profissional de saúde indicando a necessidade, sim. Mas mesmo sem laudo, muitas adaptações simples podem ser feitas pela professora como boa prática pedagógica.

Qual profissional devo procurar primeiro?

Comece pelo oftalmologista pediátrico para descartar questões visuais. Se a visão estiver boa, o psicopedagogo e o terapeuta ocupacional são os profissionais mais indicados para investigar as demais causas.

Referências bibliográficas

BADIA, M. et al. Visual processing difficulties in children with learning disabilities. Journal of Learning Disabilities, 2013.

BERNINGER, V. W.; WOLF, B. J. Teaching students with dyslexia and dysgraphia: Lessons from teaching and science. Baltimore: Paul H. Brookes Publishing, 2009.

BLYTHE, S. G. Attention, balance and coordination: The A.B.C. of learning success. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.

FEDER, K. P.; MAJNEMER, A. Handwriting development, competency, and intervention. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 49, n. 4, p. 312-317, 2007.

SANTOS, F. H.; BUENO, O. F. A. Memória de trabalho e aprendizagem escolar. Psicologia Escolar e Educacional, 2003.

TOPLAK, M. E.; WEST, R. F.; STANOVICH, K. E. Do performance-based measures and ratings of executive function assess the same construct? Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 54, n. 2, p. 131-143, 2013.

Avaliação Psicopedagógica em Recife

Seu filho apresenta algum desses sinais?

Entender a causa das dificuldades é o primeiro passo para ajudar de verdade. Agende uma avaliação e descubra o melhor caminho para o desenvolvimento do seu filho.

✔ Mais de 10 anos de experiência  ·  ✔ Atendimento presencial em Recife

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima